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Quando o Crime Vira Espetáculo: A Nossa Cumplicidade no Mercado da Barbárie
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Foi preso no último domingo (09/08) Marco Antônio Heredia Viveros por descumprir medidas protetivas de urgência concedidas em favor de sua ex-mulher, Maria da Penha — ativista dos direitos humanos e figura central cuja trajetória e luta efetiva resultaram na criação da lei de proteção contra a violência de gênero no Brasil —, e de suas duas filhas. A prisão preventiva foi decretada durante o plantão judicial pelo juiz Cesar Morel Alcantara, a pedido do Ministério Público do Ceará (MPCE), após o investigado conceder entrevista a uma emissora de TV nacional e ter trechos promocionais veiculados nas redes sociais.

Proibido desde 2024 de divulgar informações sobre o processo ou propagar o nome e a imagem das vítimas, o ex-marido violou o artigo 24-A da Lei Maria da Penha. A prisão foi efetuada em Natal pela Polícia Militar do Rio Grande do Norte, em ação conjunta com o Gaeco/MPRN. Além da prisão para garantia da ordem pública, a Justiça determinou a retirada imediata dos conteúdos do ar, a proibição de veiculação da reportagem e a preservação de todo o material sob pena de multa diária de R$ 100 mil.

A atuação das autoridades foi rápida e necessária. No entanto, o fato deixa uma inquietação profunda: por que a exposição e a relativização da violência contra a mulher ainda encontram palco na grande mídia e geram tanto engajamento nas redes?

O Fascínio pelo Proibido e a Projeção da Sombra

O interesse do público por conteúdos chocantes e por figuras que desafiam a lei não acontece por acaso. A psicologia profunda investiga há tempos a ambivalência do ser humano diante do sofrimento e da transgressão.

Ao analisar a dinâmica dos impulsos em O Mal-Estar na Civilização (1930), Sigmund Freud destacou que a agressividade e a destrutividade são forças reprimidas pelo processo civilizatório. Quando um veículo de comunicação dá palco a um agressor, a audiência consome essa transgressão de forma indireta, alimentando uma atração inconsciente pelo proibido.

Aprofundando essa análise, Carl Jung formulou o conceito de Sombra — a dimensão inconsciente da psique que abriga os impulsos reprimidos pela moral consciente. Jung alertava:

"Ninguém se torna iluminado imaginando figuras de luz, mas sim tornando a escuridão consciente."

Ao consumirmos avidamente notícias apelativas sobre crimes e agressões, muitas vezes estamos projetando no "outro" (o criminoso na tela) nossos próprios impulsos reprimidos, esquivando-nos de encarar a escuridão presente na própria cultura.

Fica a provocação: até que ponto nosso interesse por essas notícias é busca por informação e até que ponto é apenas uma curiosidade mórbida pela dor alheia?

A Balança da Justiça vs. O Peso da Mídia

O Mercado da Indignação e o Desengajamento Moral

Se a mente humana carrega essa vulnerabilidade, os veículos de mídia e os criadores de conteúdo atuam como amplificadores. Inseridos na lógica do lucro rápido, muitos priorizam métricas de audiência em detrimento da ética e dos direitos fundamentais.

O psicólogo Albert Bandura formulou o conceito de Desengajamento Moral, explicando os mecanismos pelos quais indivíduos e instituições justificam atos antiéticos sem sentir culpa. Ao transformar a violação de uma medida protetiva em "furo jornalístico" ou "conteúdo exclusivo", a mídia aciona esse desengajamento moral coletivo: dessensibiliza a sociedade e reduz um drama real a mero entretenimento.

Essa dinâmica é agravada pelo ecossistema digital. O psicólogo social Jonathan Haidt demonstra que as redes sociais foram arquitetadas para premiar o ultraje e a indignação. Nas plataformas, o conflito e a provocação funcionam como moedas de troca altamente lucrativas, fazendo com que o desrespeito às leis e às vítimas circule muito mais rápido do que a informação sóbria.

A Psicologia do Fascínio e o Filtro da Razão

A Linguagem da Realidade e a Nossa Responsabilidade

A escritora Clarice Lispector, ao refletir sobre a forma como apreendemos o mundo ao nosso redor, escreveu em A Paixão Segundo G.H.:

"A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como me busco nela."

Quando a linguagem utilizada pelos meios de comunicação transforma a violência contra a mulher em espetáculo, empobrece-se a própria sensibilidade social. Dar voz a um agressor que afronta uma decisão judicial e atenta contra a história de uma figura tão importante para os direitos humanos não é pluralidade de debate; é a mercantilização do crime.

O Judiciário cumpriu seu papel ao mandar prender o infrator, proibir a exibição e aplicar sanções severas. Contudo, a Justiça não consegue regulamentar o desejo do espectador. Enquanto houver audiência para a barbárie, haverá quem a comercialize.

Uma Provocação Final

Diante de telas que nos oferecem a tragédia alheia a um clique de distância, cabe questionar:

Quando clicamos, comentamos e compartilhamos conteúdos que transformam o sofrimento de uma mulher em espetáculo, somos apenas espectadores em busca da verdade… ou nos tornamos sócios silenciosos da mesma barbárie que dizemos repudiar?

One thought on “Quando o Crime Vira Espetáculo: A Nossa Cumplicidade no Mercado da Barbárie

  1. O debate não termina aqui.

    Como consumidores de informação, qual o nosso papel para mudar essa realidade? Deixe sua reflexão nos comentários e compartilhe este artigo para enriquecer essa discussão em suas redes!

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